Hoje, atender uma chamada olhando para o relógio parece algo perfeitamente normal. Em 1946, porém, até os telefones celulares pertenciam a um futuro distante. Foi justamente naquele cenário que o cartunista americano Chester Gould colocou no pulso de seu personagem mais famoso um pequeno aparelho capaz de receber e transmitir voz. Na época, parecia apenas uma invenção dos quadrinhos. Décadas depois, a indústria tecnológica transformaria aquela ideia em um produto cotidiano.
Tudo começou com um pequeno aparelho desenhado no pulso

Dick Tracy já era um personagem conhecido quando seu criador, Chester Gould, decidiu acrescentar uma novidade às histórias.
Em janeiro de 1946, o detetive passou a utilizar o chamado 2-Way Wrist Radio, ou rádio de pulso bidirecional. O aparelho permitia que Tracy permanecesse em contato com outros policiais mesmo enquanto estava em ação.
A ideia pode parecer simples atualmente.
Na metade da década de 1940, era quase ficção científica.
Os equipamentos de comunicação sem fio eram grandes quando comparados aos dispositivos atuais, e a eletrônica necessária para colocar um rádio funcional dentro de algo parecido com um relógio ainda estava muito distante de chegar ao mercado de massa.
Gould, porém, parecia convencido de que aquele futuro chegaria.
Registros históricos recuperados pelo IEEE mostram que o cartunista fazia questão de destacar o dispositivo nas tirinhas. Ele queria que os leitores se lembrassem de onde haviam visto aquela ideia quando um rádio bidirecional de pulso finalmente se tornasse realidade.
Existe até uma história de que Gould teria sido inspirado pelo trabalho do inventor Al Gross, pioneiro em sistemas portáteis de comunicação sem fio.
Mas há um problema nessa versão.
Pesquisadores que examinaram os arquivos do cartunista não encontraram evidências que confirmem um encontro entre os dois. O próprio Gould também não explicou claramente de onde veio sua inspiração.
O que sabemos é que seu relógio imaginário continuaria evoluindo.
O relógio de Dick Tracy ficou ainda mais futurista
A ideia não permaneceu congelada em 1946.
Com o passar das décadas, Gould e outros autores continuaram adicionando recursos tecnológicos ao universo de Dick Tracy. O simples rádio de pulso acabou evoluindo para dispositivos mais sofisticados.
Em versões posteriores, o personagem ganhou até comunicação com vídeo.
É uma progressão curiosiosamente parecida com aquela que aconteceria no mundo real: primeiro comunicação por voz, depois telas, computadores cada vez menores e, finalmente, dispositivos inteligentes capazes de permanecer conectados à internet.
Mas transformar ficção em produto comercial levou tempo.
Muito tempo.
A indústria experimentou diferentes conceitos de eletrônicos usados no pulso durante décadas. Surgiram relógios com calculadoras, pagers, pequenos computadores e até tentativas de colocar telefones celulares inteiros no pulso. Nem todas deram certo.
O verdadeiro salto comercial dos smartwatches começou a ganhar força no início da década de 2010.
E foi então que uma gigante da tecnologia decidiu usar Dick Tracy para mostrar que aquele futuro imaginado décadas antes finalmente havia chegado.
Em 2013, a Samsung percebeu a semelhança
Em setembro de 2013, a Samsung apresentou o Galaxy Gear.
O relógio possuía tela AMOLED, câmera integrada e permitia receber notificações, utilizar aplicativos e realizar determinadas funções de comunicação quando conectado a smartphones Galaxy.
A semelhança conceitual com o dispositivo imaginado por Gould era tão evidente que a própria Samsung resolveu explorá-la.
Nas campanhas publicitárias do Galaxy Gear, a companhia recuperou diferentes relógios e comunicadores de pulso imaginados pela cultura popular ao longo das décadas.
Dick Tracy estava entre eles.
A publicidade terminava basicamente com uma mensagem: depois de tantos anos imaginando aquilo, finalmente era real.
Entre janeiro de 1946 e setembro de 2013 haviam se passado aproximadamente 67 anos.
Mas existe uma pequena correção histórica importante.
O Galaxy Gear não foi literalmente o primeiro relógio inteligente, tampouco o primeiro aparelho eletrônico capaz de realizar funções avançadas no pulso. Diversos dispositivos anteriores já haviam explorado conceitos semelhantes.
O que ele representou foi outro momento importante: a entrada de uma das maiores fabricantes de eletrônicos do mundo em uma categoria que começava a chamar atenção do grande público.
E aquilo era apenas o começo.
Hoje fazemos no pulso muito mais do que Gould imaginou

Os smartwatches atuais transformaram aquele conceito básico de comunicação portátil em algo consideravelmente mais sofisticado.
Além de chamadas e mensagens, modelos modernos oferecem GPS, pagamentos por aproximação, reprodução de música, aplicativos e uma enorme variedade de recursos relacionados à atividade física e à saúde.
Alguns conseguem funcionar com conexão celular própria, reduzindo ainda mais a dependência do smartphone.
O curioso é que a essência permanece surpreendentemente parecida com aquela desenhada em 1946.
Uma pessoa levanta o braço, olha para o pulso e utiliza um pequeno dispositivo para se comunicar à distância.
Não é preciso retirar um telefone do bolso.
Dick Tracy fazia praticamente a mesma coisa.
Naturalmente, isso não significa que Chester Gould tenha “inventado” o smartwatch moderno. A tecnologia resultou de décadas de avanços independentes em semicondutores, baterias, telas, redes móveis, sensores e miniaturização.
Mas Gould fez algo que a ficção científica consegue fazer particularmente bem.
Imaginou como as pessoas poderiam utilizar uma tecnologia antes que a engenharia fosse capaz de construí-la.
E talvez seja essa a parte mais interessante da história.
Em 1946, o rádio de pulso servia para mostrar aos leitores que Dick Tracy vivia em um mundo tecnologicamente extraordinário.
Hoje, fazemos algo muito parecido sem pensar duas vezes — enquanto esperamos o ônibus, caminhamos pela rua ou simplesmente recebemos uma mensagem.
O futuro que parecia impossível acabou virando uma pequena tela que carregamos todos os dias no pulso.
[Fonte: cronista]