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Leão XIV leva à Unesco uma pergunta incômoda sobre o futuro da tecnologia

Durante uma visita a Paris, Leão XIV colocou inteligência artificial, dignidade humana e concentração de poder no centro de um alerta que vai muito além da religião.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial já consegue escrever, criar imagens, analisar enormes quantidades de dados e participar de decisões que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Mas existe uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: quem realmente será beneficiado por todo esse poder? Em Paris, diante de uma das principais organizações internacionais dedicadas à educação e à ciência, o papa Leão XIV apresentou sua resposta e fez um alerta sobre os rumos da tecnologia.

Um discurso em Paris colocou a tecnologia no centro do debate

Durante sua visita à França, Leão XIV esteve nesta sexta-feira, 25 de setembro, na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris. O local escolhido para o pronunciamento não foi casual: a instituição atua justamente em áreas profundamente afetadas pela transformação digital, como educação, ciência, cultura e informação.

Em sua intervenção, o pontífice falou sobre a dignidade da vida humana e sobre a necessidade de protegê-la diante das rápidas mudanças provocadas pelas novas tecnologias. Entre elas, a inteligência artificial recebeu atenção especial.

A preocupação apresentada pelo papa não se concentra simplesmente na existência dessas ferramentas ou em seu avanço acelerado. O ponto central está na maneira como elas são desenvolvidas, controladas e utilizadas.

Para Leão XIV, os esforços relacionados às novas tecnologias precisam garantir que elas continuem subordinadas às necessidades humanas. Caso contrário, ferramentas criadas para facilitar a vida podem assumir uma função muito diferente.

Foi nesse contexto que o pontífice fez uma de suas advertências mais contundentes: a tecnologia não deveria se transformar em instrumento de dominação ou injustiça.

A inteligência artificial já ocupa um espaço importante em seu pontificado

O pronunciamento na Unesco não surgiu isoladamente. Desde o início de seu pontificado, Leão XIV vem colocando a inteligência artificial entre os grandes desafios sociais e éticos deste período histórico.

Na apresentação de sua encíclica Magnifica humanitas, em maio, o papa já havia destacado que a IA influencia diferentes áreas da vida cotidiana e participa cada vez mais de decisões capazes de afetar diretamente as pessoas.

Entre as preocupações mencionadas anteriormente estão sistemas automatizados utilizados em conflitos, algoritmos capazes de influenciar o acesso ao emprego, à saúde e a outros serviços, além do risco de decisões tecnológicas reproduzirem preconceitos presentes nos dados utilizados para desenvolvê-las.

Leão XIV chegou a defender que a inteligência artificial precisa ser “desarmada”. A expressão não significa abandonar a tecnologia, mas impedir que seu desenvolvimento seja guiado por lógicas capazes de ampliar exclusão, concentração de poder ou violência.

A ideia defendida pelo pontífice é que inovação tecnológica e responsabilidade não podem seguir caminhos separados.

Isso coloca uma questão particularmente atual no centro da discussão: uma tecnologia pode ser extremamente eficiente e, ao mesmo tempo, produzir consequências sociais problemáticas dependendo da maneira como é utilizada.

O problema não está apenas nas máquinas

O alerta apresentado em Paris também desloca a discussão sobre inteligência artificial para além da capacidade técnica dos sistemas.

Modelos cada vez mais avançados conseguem processar enormes volumes de informação, automatizar atividades e realizar tarefas que poucos anos atrás pareciam depender exclusivamente da inteligência humana. Mas essas capacidades não determinam sozinhas como a tecnologia será aplicada.

Governos, empresas, desenvolvedores e instituições continuam responsáveis pelas decisões relacionadas à implementação desses sistemas.

É justamente nesse espaço que surgem questões sobre transparência, controle, desigualdade e acesso. Uma tecnologia poderosa concentrada nas mãos de poucos atores pode produzir efeitos muito diferentes daqueles de uma ferramenta desenvolvida com regras claras e mecanismos de supervisão.

A discussão também alcança o mercado de trabalho, a educação, a segurança e até os conflitos militares.

Para o papa, portanto, a questão fundamental não é escolher entre aceitar ou rejeitar a inteligência artificial. O desafio está em estabelecer limites capazes de preservar a dignidade humana enquanto a inovação continua avançando.

Uma preocupação que vai acompanhar a próxima fase da IA

A visita de Leão XIV à Unesco também carrega um componente histórico. João Paulo II esteve na instituição em 1980, quando fez um importante discurso sobre cultura, educação e o papel do ser humano na sociedade.

Quase meio século depois, outro pontífice retorna ao mesmo espaço em um cenário radicalmente diferente.

Agora, algoritmos podem interferir na informação que chega às pessoas, sistemas generativos produzem conteúdos em segundos e decisões automatizadas começam a participar de áreas cada vez mais sensíveis.

É nesse ambiente que Leão XIV tenta estabelecer uma mensagem simples: o avanço técnico não deveria ser considerado progresso automaticamente.

A tecnologia pode contribuir para resolver problemas importantes, ampliar o conhecimento e melhorar serviços. Mas, na visão apresentada pelo papa, seu valor depende da finalidade para a qual é utilizada e das consequências que produz para as pessoas.

Em outras palavras, a grande questão da era da inteligência artificial talvez não seja apenas descobrir até onde as máquinas conseguem chegar.

Será decidir até onde queremos permitir que elas — e principalmente aqueles que as controlam — cheguem.

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