Durante décadas, a Argentina construiu uma vantagem difícil de contestar em um dos segmentos mais importantes do complexo da soja. Era um domínio tão consolidado que parecia quase estrutural. Mas esse cenário começou a mudar. Nos últimos anos, o Brasil acelerou investimentos, ampliou sua capacidade industrial e encurtou de forma agressiva a distância em um mercado que ajuda a definir preços, fluxo de comércio e receita externa de toda a região. O alerta agora já não é teórico: a disputa ficou real.
O principal trunfo exportador da Argentina já não parece tão intocável

O avanço do Brasil em um elo estratégico da cadeia global da soja acendeu um sinal de alerta no agronegócio argentino. O foco da disputa não está no grão em si, mas em um produto que há décadas funciona como uma das grandes fortalezas comerciais da Argentina: o farelo de soja. Durante muito tempo, o país liderou com folga as exportações mundiais desse subproduto, sustentado por uma indústria de esmagamento altamente desenvolvida e por uma estrutura exportadora moldada justamente para capturar valor além da matéria-prima bruta.
Agora, porém, essa vantagem está encolhendo. Segundo projeções da Bolsa de Comércio de Rosário, o Brasil já está praticamente colado na Argentina nas exportações de farelo de soja neste primeiro semestre. A estimativa aponta embarques brasileiros acima de 12,3 milhões de toneladas, contra cerca de 13,3 milhões de toneladas projetadas para os argentinos. Em outras palavras, a diferença entre os dois países caiu a um patamar muito mais apertado do que o mercado se acostumou a ver.
O dado ganha peso porque não se trata de uma oscilação pontual de safra ou de logística. O que está em curso é uma mudança mais profunda na estrutura de competitividade da região. Historicamente, a Argentina conseguiu transformar a soja em uma máquina de geração de divisas por meio da industrialização do grão, especialmente com a produção de farelo e óleo. Esse modelo ajudou o país a se consolidar como o maior exportador global de farelo de soja, um produto-chave para a alimentação animal e, portanto, para cadeias como aves, suínos e bovinos em diferentes partes do mundo.
Só que, enquanto a indústria argentina de esmagamento avança em ritmo lento e praticamente estagnado em alguns períodos, o Brasil vem acelerando. E essa aceleração começa a ameaçar justamente o coração de uma das maiores vantagens comparativas do agro argentino.
O que fez o Brasil crescer tanto nesse mercado
O salto brasileiro não aconteceu por acaso. De acordo com o relatório da Bolsa de Rosário, o principal motor dessa transformação foi a expansão consistente da capacidade de processamento no país vizinho. Em 2025, o Brasil fechou o ano com um volume recorde de 58,7 milhões de toneladas de soja processadas, um crescimento de 22,8% em relação a 2021. É um avanço expressivo em um intervalo relativamente curto e suficiente para mudar a balança competitiva entre os dois maiores protagonistas da soja sul-americana.
Esse movimento foi alimentado por uma combinação de fatores industriais e energéticos. Um dos mais relevantes é a política de incentivo ao biodiesel no Brasil, que elevou a demanda por óleo de soja a níveis historicamente altos. Como o óleo e o farelo são produzidos juntos no esmagamento do grão, a expansão da indústria de biodiesel acaba gerando também uma oferta maior de farelo. Na prática, o país fortalece toda a cadeia: cria demanda doméstica para um derivado e, ao mesmo tempo, amplia a disponibilidade do outro para exportação.
É justamente aí que o problema argentino se torna mais sensível. O farelo de soja não é apenas um item importante da pauta externa do país. Ele é um dos principais geradores de receita do complexo sojeiro e um dos grandes formadores do preço da soja no mercado interno. Se o Brasil se torna mais competitivo nesse segmento, a pressão não recai apenas sobre um número de exportação, mas sobre uma engrenagem inteira do agro argentino.
As projeções mostram o tamanho da mudança. No acumulado do primeiro semestre, a expectativa é de que a Argentina exporte apenas 8% mais farelo de soja do que o Brasil. O contraste com os anos anteriores é brutal: em 2021, a diferença era de 86%. No primeiro semestre de 2025, ainda estava em 23%. Ou seja, o que antes parecia uma liderança confortável virou uma disputa apertada em tempo recorde.
Para onde vai o farelo argentino e por que essa disputa importa tanto
A relevância desse mercado fica ainda mais clara quando se observa o destino das exportações argentinas. A Europa continua sendo um dos polos centrais de demanda, com a União Europeia absorvendo uma parcela importante dos embarques. Países como Espanha, Itália, Países Baixos, Polônia e Irlanda aparecem entre os compradores mais relevantes, enquanto o Reino Unido também segue como mercado importante fora do bloco.
Mas o mapa comercial do farelo de soja argentino mudou bastante na última década, e a Ásia passou a ter um peso crescente nessa equação. O Sudeste Asiático consolidou-se como um destino-chave, com Vietnã e Indonésia entre os principais compradores da região, além da Malásia ganhando relevância em vários momentos. Em conjunto, os países do Sudeste Asiático vêm concentrando algo entre 25% e 30% dos embarques argentinos ao longo dos últimos dez anos, um patamar bastante significativo para um único bloco regional.
Ao mesmo tempo, parte do dinamismo recente da demanda asiática veio de outras áreas do continente. Países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Irã, Jordânia e Emirados Árabes Unidos, passaram a puxar parte do crescimento dos embarques, enquanto a Turquia também ampliou suas compras de farelo argentino de forma consistente. Esse deslocamento ajuda a mostrar que o produto segue estratégico em diferentes frentes e continua sendo peça importante no abastecimento global de proteína animal.
Há também mudanças do outro lado do mapa. O norte da África, que em certos momentos chegou a representar perto de uma em cada dez toneladas exportadas pela Argentina em farelo e pellets de soja, perdeu espaço na campanha atual e registra a menor participação dos últimos 15 anos. Parte desse espaço foi ocupada por países do continente americano, especialmente os integrantes da Aliança do Pacífico. Colômbia, Chile, Equador e Peru ganharam importância como destinos e reforçam a diversificação geográfica da demanda.
No fim das contas, o avanço do Brasil não ameaça apenas um produto específico da pauta argentina. Ele mexe com um setor que ajuda a sustentar receita, competitividade industrial e influência comercial no mercado global da soja. E, quando a distância entre os dois países cai tão rápido em um segmento historicamente dominado por Buenos Aires, o alerta deixa de ser estatístico e passa a ser estratégico.
[Fonte: Infobae]