Durante décadas, a Austrália conseguiu permanecer livre das cepas altamente patogênicas H5 da gripe aviária que provocaram surtos em diferentes partes do mundo.
Essa situação mudou em junho de 2026.
Cinco aves marinhas migratórias encontradas na costa sul australiana testaram positivo para H5N1. Desde então, o vírus começou a aparecer também em mamíferos.
Uma raposa-vermelha foi infectada em um subúrbio de Adelaide. Depois, uma foca morreu em Beachport. Agora, autoridades confirmaram outro caso histórico: um golfinho encontrado morto em Goolwa, cidade portuária ao sul de Adelaide, também estava infectado.
Para o cientista especializado em conservação marinha Mike Bossley, ex-diretor do Greenpeace Australia, o aspecto mais preocupante é a velocidade com que isso aconteceu.
“Ter um caso aqui tão cedo é muito chocante para mim e muito preocupante”, afirmou Bossley à Australian Broadcasting Corporation (ABC).
Por que golfinhos podem entrar em contato com a gripe aviária?
O H5N1 é conhecido principalmente por infectar aves, mas o vírus já conseguiu atravessar a barreira entre espécies diversas vezes.
Mamíferos como raposas, focas e leões-marinhos já foram infectados em diferentes partes do mundo.
No caso dos golfinhos, a maneira como procuram alimento pode aumentar as oportunidades de contato com aves infectadas.
Bossley explica que esses cetáceos frequentemente acompanham aves marinhas durante a alimentação porque elas conseguem localizar cardumes do alto.
Isso coloca diferentes espécies muito próximas enquanto disputam ou compartilham as mesmas fontes de alimento.
O Departamento de Indústrias Primárias e Regiões da Austrália do Sul classificou a descoberta como um novo acontecimento para o país, embora casos de gripe aviária em golfinhos e botos já tenham sido registrados no exterior.
Golfinhos normalmente não comem aves, segundo as autoridades, mas interações entre esses animais não são incomuns.
Vírus foi encontrado em grandes quantidades no cérebro
O animal foi encontrado morto em uma praia de Goolwa.
Segundo relatos da imprensa australiana, um homem que corria pela região acompanhado de seu cachorro percebeu a carcaça e avisou as autoridades.
A veterinária-chefe da Austrália do Sul, Skye Fruean, explicou que os exames laboratoriais e a necropsia completa ainda não haviam sido concluídos.
Os primeiros resultados, entretanto, encontraram níveis elevados do vírus no cérebro do golfinho.
Essa característica seria compatível com o que os especialistas esperariam encontrar em um caso de gripe aviária.
Outras mortes de golfinhos não estão descartadas. Mesmo assim, as autoridades demonstram uma preocupação ainda maior com focas e leões-marinhos.
Focas e leões-marinhos preocupam cientistas
O problema é o comportamento social desses animais.
Focas e leões-marinhos podem permanecer reunidos em grandes grupos ou colônias nas regiões costeiras. Essa proximidade cria condições que podem favorecer surtos com vários indivíduos infectados.
O risco não é apenas teórico.
O H5N1 já provocou mortalidade significativa entre mamíferos marinhos em outras regiões do planeta, mostrando que o vírus consegue causar consequências graves quando chega a determinadas populações.
Diante da expansão dos casos, o governo da Austrália do Sul pretende aumentar sua capacidade de realizar testes localmente.
Melhorias recentes nos métodos de diagnóstico devem permitir que laboratórios do próprio estado confirmem casos de H5 com maior rapidez.
Austrália já registrou centenas de casos em animais selvagens
Apesar da chegada do H5N1, existe até agora uma diferença importante entre a situação australiana e grandes surtos observados em outros países.
As autoridades não confirmaram casos dessa cepa na indústria avícola australiana nem em outros animais de criação.
Isso pode ajudar o país a evitar, pelo menos por enquanto, os impactos sobre a produção de alimentos registrados em outras regiões.
Entre os animais selvagens, entretanto, o vírus está se espalhando.
Desde as primeiras detecções em aves marinhas em junho, a Austrália já confirmou mais de 400 infecções por vírus H5 na fauna silvestre.
A transmissão de vírus da gripe aviária de aves para seres humanos é possível. Porém, as autoridades australianas afirmam que não existem evidências de transmissão sustentada entre pessoas da cepa atualmente circulante no país.
Por isso, o risco para a população em geral continua sendo considerado baixo.
O caso do golfinho, entretanto, funciona como mais um sinal da extraordinária capacidade do H5N1 de atravessar barreiras entre espécies.
Depois de décadas praticamente protegido pela distância geográfica, o ecossistema australiano agora enfrenta um vírus que já mostrou em outras partes do mundo que não se limita às aves.