Em agosto de 2024, satélites registraram algo extraordinário na Antártida. Em uma região que deveria estar coberta pelo gelo do inverno, surgiu uma gigantesca extensão de oceano aberto.
O fenômeno ocorreu na Baía de Breid, na Antártida Oriental. Em seu ponto máximo, em 8 de agosto, a abertura alcançou aproximadamente 89.100 quilômetros quadrados — uma área comparável ao tamanho de Portugal.
Depois, ela diminuiu rapidamente e voltou a congelar ainda naquele mês.
O episódio intrigou os cientistas porque os registros de satélite, iniciados em 1979, nunca haviam mostrado aquela região sem cobertura de gelo durante julho e agosto.
Agora, uma nova pesquisa pode finalmente explicar o que aconteceu.
Não foi apenas um fenômeno que abriu o enorme buraco
A abertura observada pelos satélites é conhecida como polínia: uma região de água aberta completamente cercada por gelo marinho.
Polínias não são desconhecidas na Antártida. Elas podem aparecer quando determinadas condições atmosféricas e oceânicas impedem a formação de gelo ou afastam o gelo já existente.
O caso de 2024, porém, foi excepcional.
De acordo com um novo estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters, não houve uma única causa responsável pelo fenômeno.
Foi necessária uma combinação extraordinária de eventos ocorrendo praticamente ao mesmo tempo.
E parte dessa história começou no céu.
Seis “rios atmosféricos” atingiram a região
Durante julho e agosto de 2024, uma sequência de seis rios atmosféricos intensos chegou à Antártida.
Esses fenômenos funcionam como enormes corredores de vapor d’água na atmosfera. Eles conseguem transportar grandes quantidades de umidade e calor por milhares de quilômetros.
Quando atingiram a Baía de Breid, trouxeram ar excepcionalmente quente, muita umidade, fortes ventos vindos do norte e intensa precipitação de neve.
Esse calor adicional enfraqueceu o gelo existente e dificultou a formação de uma nova camada congelada sobre o oceano.
Mas aquilo que estava acontecendo acima da superfície explica apenas metade da história.
Água mais quente também subiu das profundezas
Enquanto a atmosfera aquecia a região por cima, o oceano fazia algo semelhante por baixo.
Os fortes ventos favoreceram um processo conhecido como ressurgência oceânica. Nele, águas relativamente quentes localizadas em maiores profundidades sobem em direção à superfície.
O oceano superior ao redor da futura polínia também estava mais quente do que o normal.
Isso criou uma combinação particularmente eficiente para destruir o gelo.
De cima, os rios atmosféricos levavam calor e umidade. De baixo, águas mais quentes dificultavam que a superfície congelasse novamente.
O resultado foi uma espécie de reação em cadeia capaz de manter uma área gigantesca de oceano exposta em pleno inverno antártico.
O episódio nunca havia sido registrado naquela região
O tamanho da abertura tornou o evento ainda mais surpreendente.
Uma polínia de 89.100 quilômetros quadrados não passa despercebida quando observada do espaço. Mas o contexto histórico chamou ainda mais atenção dos pesquisadores.
Durante mais de quatro décadas de observações por satélite, a Baía de Breid havia permanecido coberta de gelo durante julho e agosto.
Foi justamente essa ausência de precedentes que levou os cientistas a investigar detalhadamente as condições atmosféricas e oceânicas daquele inverno.
A conclusão mostra como diferentes partes do sistema climático podem se combinar para produzir fenômenos extremos que dificilmente seriam explicados analisando apenas uma variável.
Fenômenos como esse podem se tornar mais frequentes
Os pesquisadores ressaltam que a combinação observada em 2024 foi excepcional.
Isso não significa, entretanto, que episódios semelhantes permanecerão igualmente raros no futuro.
As mudanças climáticas podem intensificar alguns dos fatores associados à formação dessas grandes aberturas, incluindo ondas de calor e rios atmosféricos mais fortes.
Esse cenário preocupa porque o gelo marinho antártico desempenha funções importantes além de simplesmente cobrir o oceano.
Ele funciona como uma barreira natural contra as ondas e ajuda a proteger as plataformas de gelo localizadas ao redor do continente.
Com menos gelo durante o inverno, essas estruturas ficam mais expostas à ação do oceano.
Um enorme buraco que revelou uma combinação rara
A gigantesca abertura de 2024 desapareceu poucas semanas depois de surgir.
Mas seu curto período de existência deixou uma oportunidade única para entender melhor como atmosfera, oceano e gelo interagem na Antártida.
O que parecia inicialmente um acontecimento misterioso provavelmente não teve uma única causa extraordinária.
Foi justamente o contrário.
Vários fenômenos conhecidos aconteceram juntos, no lugar certo e no momento certo: seis rios atmosféricos, temperaturas elevadas, ventos intensos e águas profundas relativamente quentes.
Separadamente, talvez nenhum deles fosse suficiente.
Combinados, abriram no meio do inverno antártico uma área de oceano quase do tamanho de um país.