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Ciência

Uma placa tectônica está se rompendo sob o Pacífico — e cientistas conseguiram observar o processo acontecendo

Uma fratura de cerca de 75 quilômetros ajuda a mostrar como uma zona de subdução pode desaparecer aos poucos. O fenômeno ocorre em Cascadia, região capaz de produzir grandes terremotos e tsunamis, mas não indica uma catástrofe iminente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A dezenas de quilômetros abaixo do oceano Pacífico, uma enorme estrutura geológica está lentamente se desfazendo. Cientistas conseguiram observar com um nível incomum de detalhes como uma placa tectônica se fragmenta enquanto mergulha sob outra.

O fenômeno acontece no extremo norte da zona de subdução de Cascadia, diante da ilha de Vancouver, no Canadá. Ali, as placas oceânicas Explorer e Juan de Fuca encontram a placa Norte-Americana.

Entre as estruturas identificadas pelos pesquisadores está uma enorme fratura com cerca de 75 quilômetros de extensão. Em determinado ponto, um bloco apresenta um deslocamento vertical de aproximadamente cinco quilômetros.

Mas a descoberta não significa que uma gigantesca rachadura acabou de surgir no fundo do Pacífico. Na realidade, os cientistas estão observando um processo extremamente lento que pode levar milhões de anos.

Uma zona de subdução está morrendo diante dos cientistas

Um Estudo Internacional Realizado No Oceano Pacífico Identificou Regiões Específicas De Uma Falha Submarina Que Funcionam Como Barreiras Naturais Contra Terremotos Mais Intensos.
© Getty Images.

O trabalho que deu origem à descoberta foi publicado na revista Science Advances e liderado pelo geofísico Brandon Shuck, atualmente professor da Universidade Estadual da Louisiana (LSU).

Existe um detalhe importante: embora o estudo tenha voltado a ganhar repercussão em 2026, a pesquisa original foi publicada em setembro de 2025.

O fenômeno observado é conhecido como término da subdução.

Normalmente, em uma zona de subdução, uma placa tectônica mergulha por baixo de outra e continua descendo em direção ao manto terrestre. Esses sistemas estão envolvidos em alguns dos terremotos, tsunamis e processos vulcânicos mais poderosos do planeta.

Mas uma zona de subdução também pode deixar de existir.

A questão é exatamente como isso acontece.

As novas observações indicam que o processo pode ocorrer por etapas: partes da placa se rompem, fragmentos se separam e novas microplacas e limites tectônicos surgem progressivamente.

Cientistas fizeram uma espécie de ultrassom da Terra

Observar tudo isso não exigiu perfurar dezenas de quilômetros da crosta terrestre.

Os dados foram coletados em 2021 durante o Cascadia Seismic Imaging Experiment, o CASIE21, projeto financiado pela National Science Foundation dos Estados Unidos.

A bordo de um navio de pesquisa, os cientistas enviaram ondas sonoras em direção ao fundo do oceano. Essas ondas penetraram nas estruturas subterrâneas e seus ecos foram captados por uma sequência de sensores distribuídos em um cabo de aproximadamente 15 quilômetros.

O princípio lembra uma espécie de ultrassom gigantesco da Terra.

A técnica permitiu produzir imagens de alta resolução das falhas e fraturas escondidas sob o fundo oceânico. Os pesquisadores combinaram esses dados com registros de terremotos da região.

Foi assim que encontraram evidências de que algumas partes da placa continuam conectadas, enquanto outras parecem já ter se separado.

Uma fratura de 75 quilômetros está dividindo a placa

A Terra Está Se “partindo” No Fundo Do Oceano — E Cientistas Registraram Algo Nunca Visto
© Matvey Logachev – Unsplash

Um dos elementos mais impressionantes está justamente na diferença da atividade sísmica ao longo da estrutura.

Em determinados trechos dos aproximadamente 75 quilômetros estudados, pequenos terremotos continuam acontecendo. Em outros, existe um silêncio sísmico.

Os pesquisadores interpretam essa diferença como uma espécie de fotografia das diferentes etapas da ruptura.

Onde ainda existem terremotos, partes da placa continuam interagindo e se rompendo. Onde a atividade desapareceu, alguns fragmentos podem já ter se separado.

Segundo a Universidade Estadual da Louisiana, essa é uma das imagens mais claras já obtidas de uma zona de subdução em processo de desintegração. Em vez de desaparecer de uma única vez, a placa parece estar se rompendo progressivamente em pedaços.

Isso significa que um grande terremoto está chegando?

Não.

Essa é provavelmente a distinção mais importante da descoberta.

Cascadia é uma região de grande interesse para sismólogos porque possui capacidade conhecida de produzir terremotos muito fortes e tsunamis. Entretanto, os pesquisadores afirmam que a descoberta da fragmentação não altera significativamente a avaliação do risco sísmico em escalas de tempo humanas.

O processo observado acontece em escala geológica.

Isso significa milhares ou milhões de anos, não semanas, meses ou décadas.

Ainda assim, entender essas fraturas pode melhorar os modelos utilizados para estudar futuros terremotos. Uma das perguntas agora é se uma grande ruptura sísmica conseguiria atravessar essas estruturas ou se elas poderiam modificar a maneira como a energia se propaga.

O mapa das placas da Terra nunca foi permanente

A descoberta também ajuda a explicar algo maior.

As placas tectônicas que conhecemos atualmente não existiram sempre. Elas nascem, crescem, colidem, se fragmentam e desaparecem ao longo de centenas de milhões de anos.

Quando uma parte de uma placa que está afundando finalmente se desprende, pode surgir uma chamada “janela de placa”. Material quente do manto pode então ocupar esse espaço e modificar a atividade magmática da região.

O processo observado em Cascadia pode inclusive ajudar a explicar antigas microplacas encontradas diante da Baja California, consideradas restos da antiga placa de Farallon.

O mais extraordinário, portanto, não é simplesmente a existência de uma rachadura de 75 quilômetros.

É que os cientistas conseguiram observar diretamente um capítulo de uma transformação planetária que normalmente só poderia ser reconstruída milhões de anos depois, através das cicatrizes deixadas nas rochas.

 

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