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Ciência

Crocodilos já foram animais de sangue quente e podem ter “revertido” a evolução para sobreviver

Uma análise de ossos fossilizados sugere que os ancestrais dos crocodilos tiveram metabolismo elevado durante milhões de anos. Voltar ao sangue frio pode ter ajudado esses predadores a sobreviver e dominar ambientes aquáticos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Crocodilos e aves modernas parecem animais completamente diferentes, mas compartilham ancestrais que viveram há mais de 200 milhões de anos. Esses répteis, conhecidos como arcossauros, sobreviveram inclusive às condições extremas posteriores à extinção do Permiano-Triássico.

Durante muito tempo, cientistas acreditaram que apenas a linhagem que posteriormente originaria as aves havia desenvolvido o sangue quente. Uma nova análise de fósseis, porém, sugere uma história bem mais estranha.

Os ancestrais dos crocodilos também teriam apresentado metabolismo semelhante ao de animais de sangue quente. Em algum momento de sua evolução, entretanto, essa linhagem teria retornado a uma fisiologia de sangue frio.

E essa aparente regressão pode ter sido justamente uma das razões de sua sobrevivência.

Crocodilos podem ter evoluído do sangue quente para o frio

Pesquisadores analisaram ossos fossilizados de 81 espécies de arcossauros, abrangendo representantes antigos das linhagens que posteriormente deram origem às aves e aos crocodilianos.

Os resultados indicam que ancestrais dos crocodilos provavelmente apresentaram metabolismo elevado durante grande parte de sua história evolutiva, possivelmente até aproximadamente 66 milhões de anos atrás.

Isso contraria uma interpretação tradicional da evolução.

“Os cientistas presumiram que animais de sangue quente evoluíram a partir de animais de sangue frio, e não o contrário”, explicou Roger Seymour, professor emérito de fisiologia da Universidade de Adelaide, na Austrália, e principal autor do estudo.

A mudança para um metabolismo mais lento poderia ter oferecido vantagens importantes.

Crocodilos conseguem permanecer longos períodos praticamente imóveis e submersos, gastando pouca energia enquanto esperam uma oportunidade para atacar.

Um metabolismo reduzido também permite ficar debaixo d’água durante mais tempo, inclusive enquanto dominam suas presas.

O coração dos crocodilos já oferecia uma pista

Uma das primeiras evidências dessa história evolutiva estava escondida dentro dos próprios crocodilos modernos.

Eles possuem um coração com quatro câmaras.

Essa característica também aparece em aves e mamíferos, grupos de sangue quente com metabolismo elevado. A separação entre as câmaras permite controlar melhor diferentes pressões sanguíneas e distribuir oxigênio com eficiência pelo organismo.

Para Seymour, isso poderia ser uma espécie de herança de uma época em que os ancestrais dos crocodilos levavam vidas muito mais ativas.

Aves precisam de um metabolismo extremamente eficiente para sustentar atividades como o voo. Crocodilos modernos adotaram praticamente a estratégia oposta.

Eles passam longos períodos economizando energia e realizam ataques explosivos quando uma presa se aproxima.

Ossos fossilizados revelaram como esses animais viviam

Para investigar o metabolismo dos antigos arcossauros, os pesquisadores observaram pequenos orifícios existentes nos ossos das pernas.

Esses canais permitiam a passagem de vasos sanguíneos responsáveis por fornecer nutrientes ao tecido ósseo.

Estudos anteriores já haviam mostrado que esses orifícios tendem a ser maiores em animais com metabolismo elevado.

A equipe mediu os canais presentes nos fósseis e estimou a quantidade de sangue que circulava pelos ossos.

Os resultados mostraram taxas mais próximas das observadas atualmente em mamíferos e répteis de metabolismo relativamente elevado, como os dragões-de-Komodo, do que nos crocodilos modernos.

Outra evidência veio das microfraturas encontradas nos ossos. Animais muito ativos produzem mais danos microscópicos no esqueleto e precisam remodelar o tecido ósseo com maior frequência.

Voltar ao sangue frio pode ter salvado os crocodilos

Ainda existem incertezas.

Alguns paleontólogos argumentam que animais gigantes poderiam apresentar características semelhantes devido à chamada gigantotermia. Corpos enormes conseguem conservar calor durante mais tempo, mesmo sem possuir um metabolismo verdadeiramente semelhante ao de aves ou mamíferos.

Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que o conjunto das evidências favorece a hipótese de ancestrais metabolicamente muito mais ativos.

A mudança pode ter ocorrido em um momento especialmente conveniente.

Há cerca de 66 milhões de anos, o impacto do asteroide de Chicxulub provocou uma catástrofe ambiental global e contribuiu para a extinção dos dinossauros não avianos.

Nesse cenário, gastar menos energia poderia representar uma enorme vantagem.

Um metabolismo mais lento permitiria sobreviver com menos alimento, permanecer longos períodos sem comer e adotar uma estratégia baseada em paciência e ataques rápidos.

Em outras palavras, aquilo que parece uma evolução “ao contrário” pode ter sido uma adaptação extremamente eficiente.

Os crocodilos modernos talvez sejam a prova viva disso: em vez de permanecerem animais altamente ativos e metabolicamente exigentes, seus ancestrais escolheram evolutivamente uma vida mais lenta — e essa mudança pode ter ajudado sua linhagem a atravessar uma das maiores catástrofes da história da Terra.

 

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