As eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas em 3 de novembro de 2026, produziram uma transformação significativa no cenário político do país. Os democratas recuperaram o controle das duas casas do Congresso e conquistaram vitórias em territórios tradicionalmente republicanos. Mas a dimensão da mudança aparece com mais clareza nos números: milhões de votos antecipados, quase US$ 12 bilhões em gastos eleitorais e alterações importantes no comportamento de diferentes grupos de eleitores.
Democratas conquistam o Congresso e avançam em estados republicanos
As eleições de meio de mandato, realizadas dois anos depois da eleição presidencial, costumam funcionar como um importante indicador da avaliação dos eleitores sobre o governo em exercício.
Em 2026, o resultado foi desfavorável ao Partido Republicano, do presidente Donald Trump.
Os democratas conquistaram a maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, recuperando a capacidade de controlar comissões parlamentares, apresentar propostas legislativas e fiscalizar o Executivo.
Segundo os resultados acompanhados pela Al Jazeera, até a manhã de 5 de novembro o partido havia conquistado pelo menos 240 das 435 cadeiras da Câmara e 54 assentos no Senado.
Na Câmara, os democratas conseguiram retirar dos republicanos pelo menos 31 distritos eleitorais. O número é particularmente relevante porque a maioria exige 218 cadeiras.
A mudança também atingiu governos estaduais. Os democratas passaram a controlar a maioria dos governos estaduais, incluindo estados onde o Partido Republicano mantinha uma presença histórica.
Os números ainda eram preliminares, pois a apuração continuava em algumas disputas.
Mais de 120 milhões de votos e uma participação histórica

Um dos fatores que ajudam a compreender o resultado foi a elevada participação eleitoral.
Dados preliminares do Election Lab, da Universidade da Flórida, indicavam que aproximadamente 122,7 milhões de votos já haviam sido contabilizados até 5 de novembro.
Isso representava cerca de 48,8% da população apta a votar, a segunda maior participação em eleições de meio de mandato em mais de um século, ficando atrás apenas de 2018.
Outro indicador foi o voto antecipado.
Antes mesmo da abertura das urnas em 3 de novembro, mais de 61,7 milhões de votos já haviam sido registrados presencialmente ou pelo correio.
Essa modalidade ganhou importância nas últimas eleições americanas, permitindo que cidadãos participem antes do dia oficial da votação.
Entretanto, uma participação elevada não beneficia automaticamente um partido. Seu efeito depende de quais grupos comparecem às urnas, de sua distribuição geográfica e das disputas locais.
Neste ano, pesquisas de boca de urna identificaram mudanças importantes entre jovens e eleitores de origem latino-americana.
Jovens e latinos ajudam a explicar a mudança eleitoral
Entre os eleitores de 18 a 29 anos entrevistados nas pesquisas de boca de urna da NBC News, 72% declararam ter votado nos democratas, contra 25% nos republicanos.
A diferença contrasta com a disputa presidencial de 2024, quando o eleitorado jovem apresentou uma divisão mais equilibrada entre Donald Trump e Kamala Harris.
Entre os eleitores latinos, os democratas receberam 62% das preferências registradas pela pesquisa, enquanto os republicanos obtiveram 35%.
Esse resultado também representa uma mudança em relação a 2024, quando Trump ampliou seu apoio entre diferentes segmentos do eleitorado hispânico.
As pesquisas de boca de urna são estimativas amostrais e podem apresentar diferenças em relação aos resultados oficiais. Ainda assim, oferecem pistas sobre as transformações nas coalizões eleitorais.
O custo de vida aparece como uma explicação importante.
Segundo levantamento realizado pela SSRS para veículos de comunicação americanos, quase nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo para seu voto.
A insatisfação com os preços, as tarifas comerciais e a direção da economia esteve entre os principais temas da campanha.
Campanha eleitoral movimentou quase US$ 12 bilhões
As eleições de 2026 também ficaram marcadas pelo volume de dinheiro utilizado nas campanhas.
Dados da organização independente OpenSecrets apontam gastos eleitorais de aproximadamente US$ 11,9 bilhões, superando os US$ 8,9 bilhões registrados nas eleições de meio de mandato de 2022.
Parte significativa desses recursos veio de comitês de ação política, conhecidos como PACs, e de organizações que podem financiar publicidade eleitoral sem coordenar diretamente suas atividades com os candidatos.
Embora grupos externos tenham realizado investimentos expressivos em favor dos republicanos, os candidatos democratas apresentaram vantagem na arrecadação direta.
Somados, os candidatos à Câmara e ao Senado gastaram cerca de US$ 3,7 bilhões de seus próprios fundos de campanha, com uma vantagem de aproximadamente US$ 800 milhões para os democratas.
No Texas, o democrata James Talarico arrecadou aproximadamente US$ 145 milhões na disputa pelo Senado, enquanto seu adversário republicano Ken Paxton reuniu cerca de US$ 22 milhões diretamente para sua campanha.
Esses números mostram a dimensão financeira das disputas, mas não estabelecem uma relação automática entre gastos e vitórias.
Texas e Kansas protagonizam resultados que não aconteciam há décadas

Algumas das mudanças mais expressivas ocorreram em estados tradicionalmente associados ao Partido Republicano.
No Kansas, Adam Hamilton derrotou o senador republicano Roger Marshall, tornando-se o primeiro democrata eleito para o Senado pelo estado desde 1932.
No Texas, James Talarico venceu Ken Paxton e conquistou uma cadeira que não era ocupada por um democrata eleito pelo estado desde a década de 1990.
O resultado texano também atingiu o governo estadual. Gina Hinojosa derrotou o governador Greg Abbott e tornou-se a primeira mulher latina eleita para comandar o estado.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews conquistou outra cadeira republicana no Senado, ampliando os ganhos democratas no sul dos Estados Unidos.
Segundo a Reuters, as mudanças alcançaram também legislativos estaduais e governos locais, incluindo regiões onde os republicanos mantinham o controle havia décadas.
O que muda para Donald Trump nos próximos dois anos?

A nova composição do Congresso representa uma alteração importante no equilíbrio institucional americano.
Com a maioria nas duas casas, os democratas poderão controlar comissões parlamentares, realizar investigações e dificultar a aprovação de propostas defendidas pelo governo Trump.
Entretanto, o presidente continua com poderes constitucionais relevantes, incluindo o veto presidencial. Para derrubar um veto, o Congresso precisa reunir uma maioria de dois terços em ambas as casas.
Os novos parlamentares tomarão posse em 3 de janeiro de 2027. Até essa data, a composição anterior permanece em funcionamento.
Os resultados também não significam necessariamente uma mudança permanente nas preferências políticas dos americanos. Eleições de meio de mandato possuem características próprias, e o comportamento dos eleitores pode variar conforme os candidatos e as condições econômicas.
Ainda assim, os números de 2026 revelam uma transformação expressiva: os democratas conquistaram novas regiões, ampliaram sua representação institucional e alteraram a distribuição do poder em Washington.
O próximo desafio será transformar essas vitórias eleitorais em decisões políticas concretas, em um país que continua marcado por profundas divisões partidárias.