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Ciência

Mudanças climáticas redesenham o mapa da malária na África

O aumento das temperaturas está alterando as áreas favoráveis à transmissão da malária na África. Regiões antes frias enfrentam novos riscos, enquanto sistemas de saúde precisam se adaptar rapidamente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, os esforços internacionais para combater a malária se concentraram principalmente na África Ocidental e Central. Não por acaso: o continente reúne aproximadamente 95% dos casos e das mortes provocadas pela doença no mundo.

Agora, porém, as mudanças climáticas estão começando a modificar esse cenário. O aumento das temperaturas pode tornar algumas regiões tradicionalmente afetadas menos adequadas para a transmissão. Ao mesmo tempo, áreas mais frias do sul e do leste africano podem enfrentar um risco crescente.

Essa mudança representa um novo desafio para países e sistemas de saúde que historicamente não precisaram lidar com a malária na mesma intensidade.

Malária continua sendo uma enorme ameaça na África

Africa
© YouTube

Grande parte das mortes por malária no continente está concentrada em poucos países. Nigéria responde por cerca de 31,9% dos óbitos, seguida pela República Democrática do Congo, com 11,7%, e Níger, com 6,1%.

As crianças são particularmente vulneráveis. Menores de cinco anos representam aproximadamente 76% das mortes provocadas pela doença.

Uma das principais ferramentas disponíveis atualmente é a vacinação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso da vacina RTS,S/AS01 entre crianças que vivem em regiões com risco moderado ou elevado de transmissão do Plasmodium falciparum.

Esse parasita responde por aproximadamente 95% das infecções no continente e chega aos seres humanos principalmente pela picada de mosquitos Anopheles fêmeas infectados.

Um estudo publicado na revista The Lancet mostrou que a vacina RTS,S/AS01 reduziu em 13,2% a mortalidade infantil durante programas-piloto realizados em Gana, Quênia e Malaui.

Apesar dos avanços, existem obstáculos. Em abril de 2025, a OMS alertou que cortes recentes de financiamento ameaçavam os programas de combate à doença. Mais da metade dos países onde a malária é endêmica relatou interrupções moderadas ou graves nas iniciativas de controle.

Mudanças climáticas alteram as áreas favoráveis à malária

A temperatura exerce um papel importante na transmissão da malária porque influencia tanto os mosquitos quanto o desenvolvimento do parasita dentro deles.

Um estudo publicado na revista Nature indicou que a transmissão ocorre de maneira mais eficiente dentro de determinadas faixas de temperatura comuns nas regiões tropicais da África Ocidental e Central.

As condições ficam particularmente favoráveis em torno dos 25 °C. Por outro lado, a transmissão se torna muito menos provável abaixo de 16 °C ou acima de 35 °C.

Isso acontece porque o parasita precisa completar parte de seu ciclo de desenvolvimento dentro do mosquito. Esse processo depende diretamente das condições ambientais.

Historicamente, algumas regiões do sul da África e áreas de maior altitude no leste do continente permaneceram frias o suficiente para dificultar a transmissão.

O aquecimento global, porém, começa a mudar essa situação.

Regiões antes frias podem enfrentar novos surtos

Com o aumento das temperaturas, áreas elevadas da África Oriental e partes do sul do continente estão se tornando progressivamente mais adequadas para os mosquitos transmissores e para o desenvolvimento do parasita.

Ao mesmo tempo, determinadas regiões da África Ocidental podem ficar quentes demais para oferecer as melhores condições de transmissão.

Isso não significa que o aquecimento global esteja ajudando no combate à doença.

Olugbenga Mokuolu, professor de pediatria da Universidade de Ilorin, na Nigéria, explica que o mesmo calor capaz de prejudicar os mosquitos também representa um sério risco para a população, especialmente para as crianças.

Além disso, a temperatura está longe de ser o único elemento responsável pela presença da malária.

Financiamento dos programas de prevenção, resistência aos medicamentos, resistência dos mosquitos aos inseticidas e capacidade dos sistemas de saúde continuam sendo fatores fundamentais.

O resultado pode ser um continente dividido em dois cenários. Partes da África Ocidental e Central poderiam registrar alguma redução climática na transmissão, enquanto regiões do sul e do leste enfrentariam uma ameaça crescente.

Sistemas de saúde precisam acompanhar a mudança

Internacao Malaui
© Ben Iwara – Unsplash

O problema é que algumas das regiões que podem se tornar mais vulneráveis são justamente aquelas menos acostumadas a enfrentar grandes níveis de transmissão da malária.

Segundo Olumide Idowu, fundador da Iniciativa Internacional para o Desenvolvimento das Mudanças Climáticas, diversos países africanos já desenvolveram planos de adaptação. A implementação dessas estratégias, entretanto, avança mais lentamente do que as próprias mudanças ambientais.

A situação é especialmente preocupante porque a África contribui relativamente pouco para as emissões globais de gases de efeito estufa, mas está entre as regiões mais vulneráveis às consequências do aquecimento.

Os impactos podem atingir simultaneamente economias, infraestrutura e sistemas de saúde que já enfrentam limitações importantes.

Por isso, especialistas defendem mais investimentos, fortalecimento das instituições e integração das políticas de saúde às estratégias de adaptação climática.

Combate à malária não pode perder força

Mesmo nas regiões onde temperaturas mais altas possam reduzir parcialmente as condições favoráveis à transmissão, abandonar programas de prevenção seria um erro.

Resistência aos inseticidas, perda de eficácia de medicamentos, falta de recursos e sistemas de saúde frágeis podem facilmente neutralizar qualquer redução provocada pelas mudanças ambientais.

Já nas regiões mais frias, onde o risco começa a crescer, governos e comunidades precisarão intensificar a vigilância e preparar estruturas capazes de identificar e controlar novos surtos.

As mudanças climáticas, portanto, não significam simplesmente mais ou menos malária na África. Elas estão deslocando o problema.

E essa nova geografia da doença poderá exigir uma transformação igualmente rápida na maneira como o continente previne, monitora e combate uma das infecções mais letais de sua história.

 

[ Fonte: DW ]

 

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